Nos velhos tempos

Nos velhos tempos
Quando sentávamos em frente de casa
Apenas para prosear

Nos velhos tempos
Vitrola tocando, você cantava.

Nos velhos tempos
Falávamos sobre o passado
Amávamos o presente
Esperávamos o futuro
Com olhos e corações abertos
Prontos para a luta

Nos velhos tempos
Tínhamos nada e tudo ao mesmo tempo.

Nos velhos tempos
Você ainda estava aqui.

Nos novos tempos
Tenho reaprendido como viver
Como mudar, como ser
Sempre com as lembranças vivas
Dos velhos tempos.

Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

Música do Mês

Brooke Fraser – Ice on her Lashes

Gelo Em Seus Cílios

A mulher solitária segue na virada dezembro
Ela tem gelo em seus cílios
Branco está seu casaco de inverno

As árvores estão como soldados ao seu redor
Obediente, a madeira se curva
E o coração que ela temia estar congelado
Ainda bate e continua marchando

Oh, Annie
Eu penso em você cada vez que eu vejo o sol
Não queria um dia sem você
Mas de alguma forma eu consegui passar por mais um outro

Um cavalheiro aguarda numa plataforma entre uma névoa cinza e triste
Agora ele leiloou seus espólios, começando de novo aos 70
As explosões de vapor, como trombetas ao seu redor
O saúda na colunata
Enquanto ele pensa consigo mesmo:
“Estamos todos esperando o nosso trem vir”

Oh, Annie
Eu penso em você cada vez que eu vejo o sol
Não queria um ano sem você
Mas de alguma forma eu consegui passar por mais um outro

Você achou isso difícil de lidar no início?
Enquanto você com descrença acabou com isso e o quanto isso dói
Agora a dor ainda continua a arder, mas o mundo continua girando
Não é?

Oh, Annie
Eu penso em você cada vez que eu vejo o sol
Não queria uma vida sem você
Mas aqui estou eu vivendo uma